ILHA GRANDE
Por muito pouco uma tragédia como a do dia 1º na Enseada do Bananal não ocorreu em outra praia de Ilha Grande, a Vermelha. Lá, deslizamentos de terra e pedras atingiram 17 casas e uma igreja naquela madrugada. Apesar do cenário de devastação, todos os moradores conseguiram escapar. A maioria correu para perto do mar. Em toda Ilha Grande, foram contabilizados pelo menos 60 deslizamentos, segundo Jesi Batista dos Santos, de 52 anos, o Mão Branca, coordenador de Limpeza e Reparos na região.
A Praia Vermelha – um dos pontos de partida para expedições submarinas na ilha – é a penúltima antes da parte oceânica. Houve deslizamentos em cinco pontos. Eles ocorreram no mesmo horário em que houve a tragédia no Bananal, por volta das 3 horas. Um igreja da Assembleia de Deus, que ficou parcialmente destruída, escorou uma montanha de terra levada pela enxurrada, salvando pelo menos três casas.
“Deus usou a igreja como escudo”, disse Manoel José Tenório Pimenta, de 65 anos, que morava na casa em frente ao templo com a mulher, dois filhos, o genro e três netos. Na casa ao lado, também interditada pela Defesa Civil, estavam outro filho dele com a mulher e dois netos.
Com a avalanche, uma pedra de 20 metros de altura despencou do alto do morro sobre uma casa no canto esquerdo da praia. Pai, mãe, filha e um casal de amigos que passava o réveillon na casa haviam saído pouco antes, preocupados com a chuva forte e o risco de desabamento no local.
A destruição no entorno foi total. Até o curso de um riacho foi desviado pela montanha que veio abaixo, deixando uma cicatriz na mata. “Parecia um dominó”, contou o pescador Cláudio Neves Garcia, de 30 anos. Ele morava no topo do morro com a sua família, que está abrigada na Escola Municipal Ayrton Senna da Silva.
Garcia abandonou a casa correndo com a mãe, os sete irmãos, o filho de 6 anos e a namorada, a turista espanhola Cristina Costea, de 33, que está na praia há um mês. “Ouvimos os ruídos e saímos. Fomos para a praia e ficamos até o dia clarear. De manhã, vimos o efeito (do deslizamento).” Os desabrigados receberam da prefeitura colchões, comida, água, material de limpeza, gelo e velas. Até ontem à tarde, a ilha continuava sem luz, pelo quarto dia.
Benedito Brás de Oliveira, de 94 anos, teve sua casa destruída com a queda de uma barreira. Eram oito pessoas na residência. “Levantei quando começou um barulho forte e chamei meus netos. Foi um susto muito grande. Tenho pena, não queria sair da minha casa”, disse o pescador aposentado, que ganhou abrigo na Pousada Acaiá.
Cerca de 300 pessoas moram na Praia Vermelha. As pousadas estavam fechadas. Vizinha, a Praia Grande de Araçatiba teve sete casas interditadas. “Houve uma avalanche de desistências de turistas. A ilha como um todo sofreu uma debandada após a tragédia no Bananal”, disse o subprefeito de Ilha Grande, Paulo Bicalho.
Segundo o gestor público, a ilha, que tem cerca de 7 mil moradores, costumava receber 2,5 mil pessoas por dia na alta temporada (em dezembro, janeiro e fevereiro), que ficavam em média por três dias na área. Oficialmente, a única praia interditada para o turismo é a Enseada do Bananal. Bicalho avaliou que a maioria dos 60 deslizamentos é de que pequena proporção. “Temos um caso grave no Bananal, com vítimas; e outro sem vítimas, na Praia Vermelha.”